CRÔNICA | O branco converteu-se em luta e o vermelho em rebeldia

As celebrações do Senhor do Bonfim, desta última quinta-feira (11), foram marcadas por uma onda vermelha de trabalhadores Sem Terra em marcha.

today12 de janeiro de 2018

 

Por Coletivo de Comunicação do MST na Bahia
Do Voz do Movimento

Fotos: Douglas Mansur

Nas primeiras horas da quinta-feira (11), cerca de mil trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra, que participam do 30º Encontro Estadual do MST na Bahia, se organizam. Preparam as bandeiras; os bonés são colocados sobre a cabeça; e vestem camisas vermelhas com o símbolo do MST, representando identidade, luta e resistência. Tantos preparativos marcam a participação do Movimento nas celebrações da Lavagem do Senhor do Bonfim.

No início do tradicional cortejo das comemorações, na ladeira da Conceição, entre ruínas e casebres, que parecem mais maquetes, querendo alcançar o céu azul da capital baiana, crianças, jovens e adultos Sem Terra descem a ladeira, seguindo uma multidão de fiéis e devotos.

Um objetivo comum: resgatar a resistência e completar o rito que o tempo não deixou morrer, que neste caso é marcado pela procissão até a Colina Sagrada, onde são atribuídos poderes milagrosos ao Senhor do Bonfim, objeto de devoção popular e centro de peregrinação mística e sincrética.

Essa manifestação popular, que acontece todos os anos, atrai milhares de pessoas, que vestidas de branco, a cor de oxalá, orixá associado à criação do mundo e da espécie humana, percorrem 8 km em procissão, desde a Igreja da Conceição da Praia até a Igreja do Nosso Senhor Bonfim. Foi neste ponto que um mar vermelho se somou ao branco ancestral, numa festa sagrada e profana, porém de encantos que a trajetória logo traria no caminho.

O cortejo mobilizou milhares de trabalhadores baianos.

A passos curtos, os “cortejantes” se esbarram, se olham, se complementam e dançam graciosamente embalados pelo som de tambores, pandeiros, agogôs e das próprias palmas. Suor e cheiro de água benta também compõem o cenário, todos afins de molhar o corpo para benzer ou refrescar durante a caminhada que virou patrimônio imaterial da humanidade.

Há de haver muita devoção. A multidão não se intimidou com o sol quente, nem com a garoa que São Pedro, santo conhecido popularmente por fazer chover, deixou cair do céu naquele dia para lavar a alma dos devotos antes de subir a ladeira do glorioso.

Neuza de Jesus, moradora do Acampamento Irmã Dorothy, localizado em Eunápolis, após caminhar os 8 km do cortejo, disse que aquele momento simboliza fé. “A gente caminhar em defesa de uma fé é muito forte, pois apenas com ela [fé] a gente tem certeza as coisas vão acontecer”, explica.

Para ela o cortejo aponta o elemento da igualdade com força. “Quando você olha para os lados vê pessoas de todas as cores, de todos os sexos e de todas as classes sociais. Nesse momento todos somos iguais”, destaca Neuza.

Jarros de folhas e flores sustentados nas arrodilhas sobre os “orís” das baianas ajudaram a colorir aquela manhã, deixando exalar um cheiro bom, de vida, era uma nostalgia tamanha, cheio de sincretismo, cheio de crença, cheio de gente e história.

O ponto alto da festa ocorre quando as escadarias da igreja são lavadas por cerca de 200 baianas.  Nesse momento, despejam a água dos jarros nas escadarias e no átrio da igreja, ao som de palmas, toque de atabaque e cânticos de origem africana.

Terminada a parte religiosa, a festa continua no largo do Bonfim, com batucadas, danças e barracas de bebidas e comidas típicas. A festa, primeira grande manifestação de rua do ano que se inicia, anuncia que 2018 será um ano de muita luta e resistência para o povo baiano.